Naldo Benny: "A música e o respeito aos meus pais me tiraram do mundo do crime"

Postado em: 19/02/2014 15:51:02
Batizado Ronaldo Jorge da Silva, ele adotou o nome artístico de Naldo e hoje, aos 34 anos, é o astro do funk no Brasil. Mas, para alcançar a fama e ter uma média de 30 shows ao mês, o ídolo de sucessos como Amor de Chocolate teve de batalhar muuuito.
 
Com uma infância humilde e cheia de obstáculos, o garoto que vivia no Morro do Pinheiro, no Rio, precisou ganhar seu dinheirinho bem cedo. Com apenas 9 anos, Naldo começou a trabalhar como engraxate para ajudar o pai, Manoel Jorge, a sustentar os oito filhos. Entre eles Lula (Jorge Luiz da Silva), o querido irmão com quem Naldo sonhava conquistar o mundo da música. 
 
Os dois começaram a lutar por um espaço no meio em 2000. Mas o início da carreira ficou marcado em 2005, quando a dupla Naldo & Lula estourou nas rádios cariocas com o hit Tá Surdo. Já em 2007, os maninhos alcançaram sucesso nacional com Como Mágica. Porém uma tragédia pôs fim na parceria, em 2008. Lula foi misteriosamente assassinado e seu corpo encontrado carbonizado em Bangu, no Rio.
 
Por um longo período, Naldo não tinha forças para continuar sua trajetória. No entanto, lembrou de uma conversa que teve com Lula e percebeu que o desejo do irmão seria vê-lo novamente nos palcos. Foi quando decidiu seguir em frente apesar da dor. Em 2012, ele se tornou Naldo Benny e agora, com 15 anos de estrada, está lançando o DVD Naldo Benny – Multishow Ao Vivo, que traz a participação de Zezé Di Camargo e Luciano.
 
Com hits como Exagerado e Se Joga, Naldo conquistou milhares de fãs Brasil afora e dá os primeiros passos rumo ao mercado internacional. O artista já gravou inúmeros clipes nos Estados Unidos, inclusive com o rapper afro-americano Flo Rida, em Jurerê (SC).
 
Casado com Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho, há cinco meses, o astro pretende aumentar a família logo, logo. E, orgulhoso de seu passado, contou tudo sobre sua trajetória em um bate-papo emocionante e cheio de surpresas.
 
Como se sente com todo esse sucesso?
Naldo Benny – Acho importante, mostra que a carreira continua num crescente. Esse era o meu sonho, o do meu irmão, da minha família. Fico feliz por as pessoas entenderem que as minhas coisas funcionam, que minha equipe funciona, que minhas músicas funcionam, que eu sempre estou funcionando (risos).
 
E como foi sua trajetória até chegar aqui?
Muito difícil. Alguns têm a felicidade de encontrar um caminho menos demorado. Eu não... Tive muito tempo de espera, de trabalho, de dedicação e acho que tudo o que vivi foi bom para ter bagagem. Sou seguro e consciente do que faço. Temos que celebrar as vitórias, mas não podemos esbanjar. Tudo o que passei fez com que eu desse muito valor. Não faço pouco caso das coisas.
 
Pensou em desistir em algum momento?
Sim... Quando perdi meu irmão foi muito difícil, porque a gente já tinha dado alguns passos na carreira. Aí, vi que teria de fazer tudo de novo... Fora a dor da ausência.
 
E como conseguiu forças para continuar sem o Lula?
Foi graças a uma conversa que tivemos. Ele disse que por meio da dança eu poderia ter sucesso e que iria comigo. Quando ele morreu, lembrei desse papo e voltei para a dança, fui estudar, fiz meu primeiro clipe, escrevi Na Veia e sentia o meu irmão comigo...
 
Dói muito falar dele?
Quando estou sozinho e paro para pensar, não consigo, porque a saudade é tão grande, o desespero é tanto, que já vem o choro. Aí, vejo que não posso ficar nesse clima pela minha família, por mim... Então, procuro fazer minha música, estar no palco, até para homenageálo, e ir em busca do que a gente sonhou conquistar.
 
Você sente a presença dele?
Sinto e sinto a da minha mãe também. Ela era minha guardiã. Hoje minhas irmãs e eu temos a fé passada por ela.
 
Você sentiu mais a morte do seu irmão ou da sua mãe?
Não tem como comparar, meu irmão foi assassinado e por minha mãe lutei de todas as formas, sem medir esforços, nem de grana, nem de tempo. Fico arrepiado de desespero.
 
Seu irmão foi morto em 2008. Você sabe o que aconteceu? Ele teve algum envolvimento com a criminalidade?
Não sei o que aconteceu porque deixei por conta da polícia. Ou eu iria em busca disso (da verdade), ou voltava a fazer música. Voltei para a música.
 
Como foi apresentar o Sai do Chão, na Globo?
O máximo! São sonhos que jamais imaginei! Tenho que aproveitar e agradecer ao Celinho e ao Costa, já falecidos, nossos primeiros empresários. Sempre diziam para meu irmão e para mim: “Vocês vão entrar para ganhar e vamos preparálos para serem os melhores”. E eu fui atrás disso, pude fazer a diferença. Adorei apresentar o programa, faria de novo, tirei o maior ondão (risos)!
 
Nas suas músicas tem vodca, uísque, caipifruta... Curte?
Eu gosto às vezes de vinho, mas não gosto de beber. Odeio o gosto da cerveja. Recentemente tomei vinho, fiquei muito ruim e fiz mais de duas horas de show. Depois, me falaram que sentei no palco, mas nem lembro (risos)!
 
Então, por que cita bebidas na sua música?
Eu tento falar o que tem em boate: música, dança, bebida...
 
Como foi sua infância? O que mais marcou você dessa fase?
Ah, ela foi muito difícil. O que marcou foi o seriado Jackson 5, que não pude ver, porque não tinha televisão em casa. Também marcou não ter nem um par de tênis.
 
Passou fome?
Nunca!!! Era difícil manter a vida, meu pai é soldador elétrico, éramos em oito irmãos, então ficava complicado. Não tínhamos conforto, mas sempre havia comida na mesa.
 
Dentro dessa origem humilde viu alguma coisa da qual não se esquece?
Perdi muitos amigos para o crime, segurei filho de amigo no colo enquanto ele consumia droga, vi pessoas sendo assassinadas na minha frente, trocas de tiro constantes. Nasci na comunidade Nova Holanda, no Rio, e, quando ia para a escola com minha mãe, os bandidos nos davam passagem e começavam a trocar tiros. Vivi época de guerra... Até uma favela tomar a outra era tiroteio por meses. Eu vi o mundo mais negro que se possa imaginar.
 
Aprendeu muito com isso?
Claro! Não vou dizer que não adoraria ter nascido em um lugar que pudesse falar dois, três idiomas, ter uma educação bacana. Mas vivendo ali consegui uma sagacidade incrível, contrariei a estatística, como diz a música dos Racionais, Capítulo 4, Versículo 3, porque 90% da minha rapaziada foi para outro caminho. Hoje meu pai me diz que sou um herói para ele e minha família. É uma história de superação e fé!
 
Você pode dizer que a música tirou você da criminalidade?
É um conjunto... A música e o respeito aos meus pais me tiraram do mundo do crime. Eu pensava muito na minha mãe... Me chamavam para roubar, mas eu não queria ver a minha mãe chorando por ter que me visitar na cadeia. Quando descobri a música, segui meu caminho!
 
Viu a morte de perto?
Na favela, vivi muitas situações assim. Uma vez, ia fazer um show com meu irmão no Morro do Café e, quando nos chamaram para o palco, uma senhora que tinha um jornal sobre funk nos chamou para uma entrevista. Quando viramos, dispararam inúmeros tiros. Se ela não chamasse, teríamos levado muitos tiros.
 
Já teve um revólver apontado para você?
Muitas vezes! Um dia estava no Morro do Pinheiro, à noite, e vieram bandidos de uma facção rival à da minha comunidade. E quando se aproximaram um deles colocou um fuzil na minha barriga, pensando que eu era um dos bandidos rivais. Mas um menino que estava junto disse que eu era morador, eles saíram e fui correndo para casa. Foi o tempo de eu chegar lá e o tiroteio começar.
 
Já usou drogas?
Nunca quis experimentar, porque ficava indignado de ver amigos que tinham dinheiro gastando com drogas. Meu dinheiro era suado demais para gastar com isso.
 
Que lição tira disso tudo?
Minha história de vida é muito mais forte do que as pessoas imaginam... Muitas vezes por despeito acham que levo uma vida babaca, só cantando. Mas não veem o que tive de passar para alcançar tudo isso. E acho que passo uma mensagem de força às pessoas que enfrentam tudo o que enfrentei: uma infância humilde, enfrentando necessidades, em contato com a marginalidade, as drogas... Tem que ter muita força para sair da situação.
 
Tem orgulho do seu passado?
Muito! Ele me fez ser mais forte com tudo!
 
E qual era seu sonho no início?
Quando tive meu primeiro computador em casa, entrava na internet para ver as ruas dos Estados Unidos, sonhando chegar lá, e eu consegui. Já gravei clipes lá, tenho amizades com artistas de lá...
 
Qual é a mulher ideal?
A minha, claro (gargalhadas). O fundamental é cumplicidade e vontade de se dar.
 
Você teve o casamento dos sonhos com a Ellen?
Foi tudo com muita vontade, não teve nada pensando na mídia, a gente não queria que interferissem. Havia coisas chiques, mas outras simples, porque mantenho amizades antigas. Era a nossa verdade.
 
Você lidou bem com as críticas à cerimônia?
Olha, tudo foi feito com muito amor, lindo, estava com os meus amigos, tive o presente de ter minha mãe comigo (ela faleceu um mês depois).
 
Como foi a lua de mel?
A gente não teve... Ficamos dois dias em Recife (PE), mas foi rapidinho. Só deu tempo de quebrar a cama e voltar (risos).
 
Em quatro paredes, vale tudo?
Dentro dos limites, vale tudo, mas duas pessoas que se desejam têm o direito de se amar como quiserem.
 
Qual é a maior loucura de amor que você fez?
Acho que foi com a Ellen. Eu tinha uma vida, um sentimento antes e resolvi reiniciar tudo com ela. Não sabia como ela era, se daria certo. Bati o olho nela e segui em frente.
 
Vocês se conheceram na gravação de um clipe seu?
Já nos conhecíamos antes, mas no clipe sentimos alguma coisa a mais.
 
Você ficou com ela após se separar da Branka Silva ou rolou uma traição?
Nunca houve traição. A nossa relação (com a Branka) não estava boa, me apaixonei pela Ellen e fui muito claro de chegar para a Branka e contar a verdade. Só depois fui conversar com a Ellen sobre nós.
 
E você e a Branka mantêm contato?
Não, nenhum.
 
Como é a relação entre você e seu filho, Pablo (de 16 anos)?
Hoje, graças a Deus, estamos incrivelmente bem. O Pablo cresceu e tudo o que aconteceu em relação à separação ele entendeu. A gente sempre foi assim, mas infelizmente muitas inverdades foram para a rua.
 
E você se dá bem com o filho da Ellen (Victor, de 15 anos)?
É uma relação muito boa, ele é bem bacana, o Pablo também se dá bem com ele.
 
Ellen tem muito ciúme?
Todo mundo que tem uma relação séria com alguém tem. Mas no nosso caso é tudo dentro do limite.
 
E você sente ciúme?
Já tive mais, mas tudo dentro do normal.
 
Como lida com o assédio dos fãs?
É natural. Meu trabalho está exposto e as pessoas querem estar presentes. Sou muito carinhoso com meus fãs.
 
Tem muitos fãs gays, certo?
Tenho muitos e acho bacana o carinho deles.
 
Qual foi a situação mais inusitada que viveu com fã?
Foi num show em Minas Gerais... Ela ficou completamente nua na frente do palco. Acho que estava muito louca (risos). Cheguei a cair no palco de tanto rir. Nunca havia visto nada igual.
 
Já foi assediado por homens?
Não.
 
Nem por homens famosos?
De jeito nenhum...
 
Recebeu proposta indecente?
Uma fã queria comprar o show só para ela... queria só eu e ela... Mas não faço isso (gargalhadas).
 
Qual foi sua pior e melhor apresentação até aqui?
A pior foi quando perdi meu irmão... Voltar para os placos foi horrível, parecia que tinha um buraco na minha frente. Mas precisava ter força para continuar, pois ele queria que eu estivesse lá. A melhor é difícil... Talvez tenha sido o show do DVD Na Veia, de 2011, que ganhou DVD de Ouro. Minha mãe estava lá, foi marcante.
 
Como você define seu estilo?
Pop! Não posso dizer que sou funkeiro nato, não faço só rima, tenho elementos no meu som que têm um andamento diferente do funk. Por exemplo: Meu Corpo Quer Você, Sol da Minha Vida... todas têm um elemento pop, de black music...
 
É muito vaidoso?
Eu gosto de ser, procuro andar sempre bem arrumado.
 
Você precisa usar óculos?
Já marquei cirurgia, mas não deu para ir. Tenho hipermetropia... Mas gosto de usar óculos, sim... Acho que depois de operar vou continuar usando.
 
Tem alguma coleção?
De óculos, relógio, boné e, principalmente, tênis.
 
Naldo Benny... Benny significa abençoado... Tem alguma coisa a ver com a religião hebraica?
Tem, sempre li muito sobre religião e sou evangélico. Coloquei por brincadeira, virou o nome do DVD e pegou.
 
Você tem várias tatuagens... Todas têm significado?
Sim, a do braço esquerdo é para o meu irmão. São duas asas, já que ele é um anjo bom para mim. E uma estrela grande com o nome Lula embaixo. No braço direito, tem uma coroa com R de Ronaldo, mas também de Rei Jesus. E a continuação é o mundo (globo), onde a minha música vai alcançar. Na perna tenho um gorila. Gosto da força dele e tenho ainda o nome do meu filho tatuado.
 
Especularam que você e a Anitta tinham uma rivalidade, é verdade?
De forma alguma! Ela postou a foto do meu DVD no Instagram e elogiou bastante. Foi tudo pura especulação. Anitta tem muito talento e lhe desejo muita sorte.
 
E quais são seus projetos?
Acabei de lançar meu DVD, tem clipes novos vindo por aí... Meu foco total é no DVD. Foi um investimento de R$ 4 milhões. Dirigi tudo e tem muita música inédita. No dia 15 de março, acontecerá o show de lançamento em São Paulo.
 
Gosta de cuidar do corpo?
Muito, jogo basquete direto, em casa, quando viajo, no aterro do Flamengo, preciso jogar.Também corro, malho, isso me dá resistência.
 
Se considera realizado?
Em partes, sim. Tenho mais sonhos, mas grandes conquistas já existiram na minha vida. Quero outras.
 
O que falta para o sucesso absoluto?
Quero carreira internacional. Também tenho vontade de conquistar o Grammy.
 
Fonte abril.com.br
© 1990 ~ 2019 Riosampa. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por: Multi Info